Tour Virtual Cia Paulista de Vias Férreas

Por que queremos preservar o Patrimônio ferroviário de Jundiaí?

por Maria Cândida Silveira Arruda

O desenvolvimento do Estado de São Paulo em meados do século XIX se alastrou rapidamente em direção ao noroeste paulista, consequência direta da produção de café. A malha ferroviária acompanhou a evolução dos cafezais, e ao mesmo tempo ocorria o desmatamento para permitir o cultivo do “Ouro Verde”, produto de exportação altamente rentável. A necessidade da fluidez do café ao porto de Santos exigiu a rápida expansão do transporte de cargas e de pessoas por meio de uma das mais avançadas inovações tecnológicas da época.

A construção das ferrovias provocou um impacto ambiental enorme; de um lado o progresso avançava sem limites rumo às terras ainda preservadas, e de outro, esforços de técnicos e cientistas pesquisando e criando, sob a tutela do Estado, o Horto Florestal na Serra da Cantareira em São Paulo. À frente da Diretoria em 1886 estava o naturalista sueco Alberto Loefgren que, entre outros estudos, organizou o Herbário do Estado. Buscava-se soluções em prol da conservação e preservação da mata nativa, implantando experimentos de árvores de crescimento rápido para o reflorestamento, em substituição às madeiras de lei, usadas vorazmente nas recentes necessidades da malha ferroviária, em um Brasil que se encontrava num processo de ebulição desenvolvimentista.

O traçado urbano acompanhou as necessidades econômicas, e a arquitetura seguiu o estilo e tendências europeias, com novos padrões estéticos, que se alinhavam aos novos gostos da burguesia emergente.

Coube à Companhia Inglesa - com contrato de concessão de 90 anos -explorar e investir no Brasil com o nome de “The São Paulo Railway” (SPR) o percurso da malha ferroviária São Paulo/Jundiaí – Santos, trecho que era extremamente rentável. O noroeste paulista ficou a cargo dos produtores de café - os fazendeiros. Com o prazo de contrato de 90 anos expirado no ano de 1946, esta foi nacionalizada.

A estação ferroviária de Jundiaí foi implantada numa área de fundo de vale, afastada do centro histórico, e ocasionou a modificação da direção do crescimento do núcleo urbano, além de interferir no perfil econômico que a cidade assumirá no século XX.

Na SPR de Jundiaí - os imóveis quase todos ainda existentes – concentrava-se a maior parte das mercadorias produzidas em todo o interior paulista, usando a ferrovia para o transporte de todo tipo de material como tijolos, cimento, bem como para a locomoção de pessoas. Além de atingir o objetivo maior: escoar toda a produção cafeeira ao porto de Santos. Não apenas riqueza arquitetônica, estes elementos representam o início de uma nova fase econômica, na qual o país acreditava e investia pesadamente no progresso.

Com a inauguração da linha férrea o sucesso desta iniciativa foi imediato, tanto no transporte de cargas, quanto no transporte de passageiros, possibilitando o desenvolvimento de todo o interior paulista; a formação de novas cidades nas paradas das estações; e o deslocamento rápido da grande massa de imigrantes que chegavam para trabalhar nas fazendas de café, garantindo à Companhia ferroviária resultados financeiros acima do esperado neste período efervescente.

O panorama mundial com a primeira grande guerra, mudará a situação estável e crescente do país, principalmente do Estado de São Paulo que, neste período, prospera e desenvolve a passos largos, procurando superar o panorama remanescente de um Brasil colônia que vivia na precariedade e em um universo de vida simples. Tempos difíceis, que não irão se alterar mesmo ao final da segunda guerra, dada as dificuldades estruturais da economia, que refletirão inclusive nas empresas estrangeiras sediadas no Brasil. Enormes pressões de grupos oligárquicos eram feitas para que o governo assumisse ou aumentasse sua participação na administração das companhias férreas forçando, desta forma, uma nova política tarifária que favorecesse os interesses do setor produtivo.

“Apesar de tentativas de inovação, a partir da década de 1930, percebemos que a ferrovia já apresenta sinais claros de declínio. O discurso nacionalista e centralizador do governo Vargas, que dá início à primeira fase de industrialização no país, e a segunda grande guerra que impõe, novamente, dificuldades à importação de carvão e material rodante, marcam a fase final de São Paulo Railway”. (Antonio Soukef Jr.)

Por volta da década de 1940 o país deixa de ser predominantemente agrícola, modificando-se o quadro econômico; ocorre um rápido desenvolvimento industrial, que se tornou possível graças à base consolidada das ferrovias ramificadas pelo interior do Estado e ao porto de Santos, conjuntamente com o aumento populacional, com grandes mudanças no panorama nacional. O escoamento dos produtos chegará ao destino via rodovia, e o transporte rodoviário assumirá a marca de modernidade, inaugura-se a Via Anhanguera ligando duas cidades importantes: São Paulo a Campinas.

O complexo arquitetônico que forma o patrimônio ferroviário de Jundiaí - composto pelos remanescentes da SPR - possibilitam a compreensão, como uma arqueologia viva e presente, do período da primeira linha férrea construída na cidade de Jundiaí, que foi escolhida por sua localização estratégica, e serviu de polo bifurcador, ligando o noroeste paulista com a cidade de São Paulo, finalizando no porto de Santos.

O governo do Estado de São Paulo reconheceu em julho de 2010, por meio do CONDEPHAAT, o valor de toda a estrutura ferroviária de Jundiaí indicando a compreensão de sua preservação.

No entanto, a atenção à lei e o reconhecimento pelos órgãos governamentais da necessidade de preservar, através de um tombamento, ainda estão muito distantes de uma verdadeira ação preservacionista, que assegure a continuidade e revitalize toda a riqueza dos edifícios administrativos, armazéns, oficinas, depósitos, vilas, equipamentos e locomotivas.

Após longos anos passados no esquecimento, os edifícios sofreram modificações descaracterizantes com suas alvenarias de tijolos aparentes sofrendo pichações e vandalismo. Assistimos ao descaso e abandono que geraram a destruição de parte dos materiais construtivos originais, o que, somado à ação da umidade acarretada pela infiltração pluviométrica, resultaram na perda de sua integridade, e no colapso do conjunto edificado, indisponibilizando-o ao uso e à visitação, como pode ser verificado no Tour Virtual e nas imagens Still, provas irrefutáveis do descaso e da deterioração.

A cidade de Jundiaí desenvolveu sua economia e seu traçado urbano em decorrência da malha ferroviária da SPR. O complexo ferroviário tombado torna-se portanto um marco, um símbolo pertencente a todos os cidadãos que contribuíram no passado, assim como os de hoje. Somente quando a população conhecer o valor do patrimônio tombado, desta riqueza esquecida, abandonada como “velho”, haverá a compreensão e a atitude coletiva de pertencimento de um Bem valioso na história, cultura, economia e no desenvolvimento social da região e do Estado de São Paulo.

“Hoje a maior dificuldade é adaptá-lo a novos usos que respeitem sua configuração e, ao mesmo tempo, permitam sua reintegração ao tecido urbano contemporâneo”. (Antonio Soukef Jr.)

Cabe a todos nós o dever de cuidar, zelar de forma ética e manter preservado um complexo histórico que conta a história de vida de nossos avós e bisavós, os quais contribuíram direta ou indiretamente com as ferrovias, em um período de grande desenvolvimento do Estado de São Paulo. Ou caminharemos para a destruição total desse patrimônio já tombado, se continuarmos com as mesmas atitudes passivas pelo simples desconhecimento do valor histórico, estético e simbólico, permitindo intervenções errôneas de profissionais, e/ou interesses imobiliários de outra natureza. Só com atitudes conjuntas do governo e dos cidadãos esse patrimônio poderá ser restaurado e devolvido ao uso. Um interesse coletivo à sociedade.

Lutamos pela preservação deste complexo histórico ferroviário, antigo The São Paulo Railway, Companhia Paulista, Fepasa Jundiaí, pelo valor que a história da cidade, do estado, do país lhe reservou.

Lutamos pelo resgate da memória de nosso passado de luta, e sofrimento, e glória de nossos antepassados.

Lutamos pela ética, pelo envolvimento social consciente em preservar a história da Nação, para que gerações futuras respeitem e edifiquem um país muito melhor do que encontraram.




Referências Bibliográficas

• Mariano, Cassia. Preservação e paisagismo em São Paulo: Otavio Augusto Teixeira Mendes – São Paulo: Annablume, Fapesp, Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, 2005.

• Oliveira, Eduardo Romero de. Projeto memória ferroviária – São Paulo: Editora UNESP, 1968 – 1971.

• Oliveira, Eduardo Romero de. Patrimônio ferroviário do Estado de São Paulo proposta e análise dos bens estaduais tombados: UNESP.

• Soukef Jr, Antonio. Os remanescentes da SPR em Santos e Jundiaí. Memória e descaso com um patrimônio ferroviário do país. Centro Universitário FIAM/FAAM.